Se o início dos anos 90 foi o momento de semear a comunidade, 1995 foi o ano da colheita. A “doce mentira” contada em Nova Iorque dois anos antes estava prestes a se transformar na mais espetacular e colorida verdade. O Rio de Janeiro não seria apenas a capital da beleza natural; por uma semana, seria a capital mundial do orgulho LGBTI+.
Em junho daquele ano, a cidade sediou a 17ª Conferência Mundial da ILGA (Associação Internacional de Gays e Lésbicas), a primeira realizada na América Latina. Ativistas de mais de 40 países desembarcaram aqui, trazendo na bagagem suas experiências de luta e seus sonhos de um mundo mais justo. Era a “tempestade perfeita” que os organizadores, incluindo o Grupo Arco-Íris, Grupo Atobá e outros coletivos, haviam sonhado: a presença internacional daria a coragem e a visibilidade que o movimento brasileiro precisava para, finalmente, sair do armário em praça pública.
O grand finale da conferência foi a “Marcha pela Cidadania”, em 25 de junho, na orla de Copacabana. É importante resgatar o nome: naquela época, o termo “Parada” ainda não era usado no Brasil e seria popularizado em 1997, em São Paulo. A nossa marcha, contudo, foi o ato inaugural que inspirou todas as outras. E não há dúvidas sobre seu pioneirismo. Além de constar na programação oficial do evento internacional, o Grupo Arco-Íris produziu material próprio, convocando a comunidade para a “primeira marcha”. A mensagem era clara: não vem que não tem, a história estava sendo feita aqui.
E que história! Cerca de 3 mil pessoas tomaram a Avenida Atlântica, um contraste emocionante com as 28 que haviam se reunido em 1993. A comunidade arrasou ao estender pela primeira vez uma bandeira do arco-íris, um símbolo que se tornaria onipresente em nossas lutas. Com trios elétricos e a presença de ícones como a travesti Jane di Castro e a drag queen Isabelita dos Patins, o recado foi dado.
Pela primeira vez, o Brasil via, à luz do dia, uma manifestação massiva de orgulho, afeto e reivindicação por direitos. Era a hora de fazer carão para o preconceito. A marcha não apenas encerrou a conferência; ela abriu um novo capítulo para o movimento LGBTI+ brasileiro, rompendo a invisibilidade nacional e nos apresentando ao mundo.
Resgatar essa memória é, portanto, um ato de justiça histórica. Diante de tentativas de apagamento ou de narrativas que minimizam sua importância, é fundamental reafirmar o pioneirismo do Rio. Como afirma Cláudio Nascimento, o que existe são “determinados setores que não reconhecem, de forma justa e política, a trajetória de resistências culturais e políticas que marcaram a construção do movimento LGBTI+”.
O pioneirismo do Rio não se mede apenas pela data, mas pelo seu poder de inspiração. A partir daquele 25 de junho, a semente da ocupação das ruas foi plantada e, ao longo dos anos, as Paradas se expandiram de Norte a Sul, tornando-se a principal forma de mobilização do movimento social LGBT brasileiro. Aquele ato em Copacabana estabeleceu um formato que se tornaria uma referência: a união entre a celebração da diversidade – a festa, a alegria, os corpos visíveis – e a firmeza do protesto político.
A Marcha de 1995 foi mais que um evento. Foi a prova de que, quando nos unimos, somos capazes de ocupar todos os espaços. Foi o dia em que o Brasil e o mundo viram, sem máscaras, a força e a beleza da nossa existência.