O catalisador para o que viria a ser a Parada do Rio nasceu de uma visão global. Em 1991, o ativista Adauto Belarmino, companheiro de Cláudio Nascimento, viaja para a Conferência Mundial de Direitos Humanos em Viena, Áustria. Lá, ele descobre um encontro da ILGA (Associação Internacional de Gays e Lésbicas) e testemunha uma discussão sobre candidaturas de países para sediar futuras conferências mundiais. Naquele momento, acontece um “deslumbre”: a percepção de uma possibilidade imensa. Adauto se pergunta por que o Brasil ainda não estava naquele palco e, em um ato de ousadia, apresenta a candidatura do Rio de Janeiro para sediar o evento em 1995.
A proposta foi aceita como uma pré-candidatura, mas precisava de confirmação na Conferência da ILGA em Nova Iorque, em 1993. Foi nesse momento que a história deu uma guinada decisiva. Toni Reis, representando o Brasil em Nova Iorque, ligou para os ativistas do Grupo Arco-Íris e outros coletivos no Rio com uma pergunta crucial: vocês têm condições de segurar essa conferência? A resposta exigia o cumprimento de um rígido protocolo da ILGA, algo que a militância carioca, com recursos limitados, não tinha como garantir.
Reunidos no Sindicato dos Comerciários, os ativistas tomaram uma decisão coletiva que mudaria tudo: eles iam mentir. Então, afirmaram que sim, teriam condições de responder a todos os protocolos. Essa “doce mentira”, como ficou conhecida entre os organizadores, não foi um ato de engano, mas um ato de fé radical no seu próprio potencial. Os ativistas viram na conferência mundial a “chance que a gente não teve ainda para dar visibilidade social e política à pauta”. A candidatura do Rio para 1995 foi confirmada.
Enquanto a euforia pela conquista da conferência tomava conta de parte do movimento, uma outra realidade impunha-se de forma brutal. Em 1993, no mesmo ano da confirmação em Nova Iorque, uma tentativa de passeata para demarcar o Dia do Orgulho foi organizada na Avenida Atlântica. O resultado foi desolador: apenas 28 pessoas compareceram. Os participantes saíram deprimidos do evento.
Esse fracasso, no entanto, tornou-se a lição mais importante daquela década. O contraste entre a ambição internacional e a frágil realidade local revelou um diagnóstico profundo para o movimento: ficou claro que a comunidade ainda não possuía uma identidade política coletiva. Faltava uma base, um senso de pertencimento e segurança que encorajasse as pessoas a ocuparem o espaço público.
Na visão dos organizadores da época, o problema a ser combatido não era apenas o silenciamento imposto pela sociedade, mas o “silenciamento das identidades” que ocorria a nível pessoal. As pessoas eram pressionadas a não falar sobre si, a viver as suas identidades apenas em espaços restritos, como a noite ou guetos específicos. A estratégia, portanto, seria criar ambientes seguros e diversos onde as pessoas pudessem sair do armário, reconhecer-se e, finalmente, construir uma identidade coletiva. O objetivo traçado foi a “amplificação das vozes para tentar construir uma ideia de identidade coletiva”.
Em meio a essa construção, atos individuais de coragem ganharam dimensão coletiva. Em 1993, Adauto Belarmino tornou-se o primeiro ativista brasileiro a ganhar o prestigioso Prêmio de Direitos Humanos da Reebok Foundation, trazendo validação e visibilidade internacional para a causa no Brasil.
O ato mais impactante, contudo, viria em 29 de abril de 1994: o primeiro casamento gay público do Brasil, entre Cláudio Nascimento e Adauto Belarmino. O evento transformou-se num gigantesco ato político, reunindo cerca de 1.000 pessoas na rua e outras 500 no espaço da cerimônia. Mais do que uma celebração do amor, o casamento foi uma plataforma para quebrar outro silêncio: o do HIV/AIDS. Adauto, vivendo com HIV, e Cláudio, soronegativo, assumiram publicamente a sua “sorodiferença” (termo atual para a antiga “sorodiscordância”), levando o debate para os media nacionais e internacionais e desafiando o estigma que cercava a epidemia.
A prova final de que a estratégia estava a funcionar veio em 1994, com a “Tarde de Convivência pela Dignidade Homossexual”. Em vez de uma passeata de protesto, o movimento organizou um encontro no Museu de Arte Moderna (MAM), um local visto como seguro e acolhedor. Foi um dia de celebração, com “peteca, com cabo de guerra, com poesia”, onde as pessoas podiam simplesmente estar juntas à luz do dia, com as suas cangas estendidas na relva, sem medo. A abordagem à imprensa foi cuidadosamente planeada, procurando jornalistas simpáticos à causa para garantir uma cobertura respeitosa. O evento foi um sucesso e mostrou que a comunidade estava pronta para se encontrar, se ver e celebrar a sua existência. Era a política prefigurativa em ação: criar, no presente, o mundo que se desejava para o futuro.
O legado do que veio antes de 1995 é, portanto, uma aula de organização comunitária. É a história de como a visão se transformou em ousadia, como a decepção se tornou estratégia e como a cultura, o afeto e a convivência se revelaram as mais poderosas ferramentas políticas. O Grupo Arco-Íris e os seus aliados ensinaram que, para que um coletivo se liberte, é preciso primeiro fortalecer a identidade de cada indivíduo. Como dizia uma frase do grupo na época: “o Arco-Íris é a possibilidade de você ser você mesmo, pensar diferente e ainda assim caminharmos juntos”.
A primeira Marcha do Orgulho de 1995 não foi o começo da história. Foi a colheita visível e triunfante das sementes que foram pacientemente plantadas, regadas com coragem e cultivadas com a sabedoria de que a união precede a luta. E essa lição fundamental é o que conecta aquela geração de pioneiros à nossa luta de hoje.