A Primeira Marcha do Orgulho de 1995 não começou com discursos formais ou com o desenrolar da bandeira. Ela começou com um gesto de desafio que era, ao mesmo tempo, profundamente humano e intensamente político: o “Beijato”. Este não foi um ato espontâneo de encerramento, como se poderia imaginar, mas uma abertura estratégica, uma declaração de intenções cuidadosamente planeada que definiria o tom de toda a manifestação.
Durante séculos, a homossexualidade foi mais do que relegada à sombra; ela foi sistematicamente caçada, patologizada como doença, condenada como pecado e criminalizada como delito. O afeto entre pessoas do mesmo sexo era uma existência clandestina. A trágica definição cunhada na era de Oscar Wilde – “o amor que não ousa dizer seu nome” – tornou-se o estigma que resumia essa realidade. A sociedade não impunha apenas o silenciamento passivo; ela exigia a invisibilidade ativa. O amor, quando ousava florescer, era vivido apenas em espaços privados e segregados, comunicado por códigos secretos e olhares furtivos, e quase sempre assombrado pelo peso da culpa imposta, pelo medo da descoberta e pela vergonha internalizada.
O “Beijato” de 1995 foi a resposta direta, coletiva e visceral a essa longa opressão histórica. Foi o momento da ruptura deliberada. A comunidade, reunida em plena luz do dia na Avenida Atlântica, um dos cartões-postais do país, decidiu quebrar esse pacto de silêncio secular. O ato foi uma afronta calculada à norma que os condenava. Eles não iriam apenas “ousar dizer o nome” desse amor; eles o fariam da forma mais visível, inegável e humana possível: demonstrando-o publicamente, em massa, tomando posse dos seus próprios corpos e do espaço público. Cada beijo era uma proclamação que ecoava por um século de vergonha, gritando em alto e bom som: “Estamos aqui para dar nome e sobrenome aos nossos amores”. Era a transformação do afeto privado em declaração política, a reivindicação da identidade plena e do direito de amar sem pedir permissão, nem perdão.
A estratégia central concebida pelos organizadores era a do “empoderamento afetivo”. Esta não era uma ideia abstrata; era uma tática de combate direto. Havia um entendimento claro e precursor de que a luta política coletiva seria impossível sem a libertação pessoal e afetiva individual. A opressão sistémica funcionava precisamente ao atacar o indivíduo, ao minar a sua autoestima e ao ensiná-lo a ter vergonha da sua própria identidade e dos seus desejos. Numa sociedade que ativamente negava a própria existência de afeto legítimo entre pessoas do mesmo sexo — tratando-o como doença, crime ou pecado — o simples ato de assumir publicamente esse afeto tornava-se uma das mais potentes e subversivas ferramentas políticas que um indivíduo poderia cometer.
O beijo coletivo foi, portanto, uma ferramenta pedagógica e de encorajamento revolucionária, desenhada não apenas para o mundo ver, mas para os próprios participantes sentirem. O seu objetivo era desmantelar a vergonha internalizada, demonstrando na prática que eles não estavam sozinhos e que o seu amor, longe de ser motivo de embaraço, era digno de celebração. Era a reivindicação explícita, em praça pública, do direito fundamental ao afeto, um direito que era rotineiramente negado, vigiado e violentamente policiado — não só pelas leis que poderiam enquadrar o ato como “obsceno”, mas pelo olhar julgador da sociedade e pela agressão física e verbal sempre iminente. O “Beijato” tomou a rua, historicamente um lugar de potencial violência, invisibilidade e trânsito apressado para corpos LGBTI+, e transformou-a radicalmente num território de celebração, pertença e poder coletivo.
Havia uma poderosa utopia que guiava essa ação, um sonho paradoxal compartilhado entre os ativistas da época: a esperança de que, um dia, um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo seria visto simplesmente como um beijo. O objetivo final daquele gesto político era, ironicamente, o de se tornar desnecessário. Eles lutavam para que futuras gerações não precisassem mais ver esse ato como uma bandeira de luta ou uma demonstração de coragem, mas apenas como uma banalidade quotidiana do afeto humano.
Mas, em 1995, ele não podia, em hipótese alguma, ser “apenas” um beijo. Naquele contexto de repressão social e epidemia de HIV/AIDS, onde a existência LGBTI+ era sinónimo de doença, crime ou vergonha, o beijo era a própria luta encarnada. Era o campo de batalha onde o corpo, o desejo e o espaço público se encontravam. Enquanto o sistema operava pela invisibilidade, o “Beijato” operava pela visibilidade radical; enquanto o sistema impunha a vergonha, o “Beijato” reivindicava o orgulho. Era a alquimia política de transformar o chumbo da opressão internalizada no ouro do orgulho visível, coletivo e inegociável.
O “Beijato” de 1995 tornou-se, assim, muito mais que um protesto de abertura; foi um elemento estratégico fundador. Ele estabeleceu uma marca de afirmação política que se repetiria e daria a tônica da Parada do Orgulho LGBTI+ do Rio nos seus primeiros vinte anos. Foi a materialização inequívoca da ideia de que a revolução também, e talvez principalmente, se faz com afeto. Numa batalha contra um sistema que se alimenta do ódio, da vergonha e da violência, usar o amor, a alegria e a visibilidade como armas é a mais potente e subversiva das estratégias. Ao abrirem a primeira Marcha com este gesto, os pioneiros do movimento não estavam apenas a celebrar o amor; estavam a usá-lo como sua mais poderosa arma política, dando, enfim, nome, sobrenome e visibilidade pública indelével aos seus amores.