Toda história tem um começo. Mas raramente esse começo é um ponto único no tempo, um marco isolado que surge do nada. A história de um movimento, especialmente de luta por direitos e existência, é um acúmulo. É uma teia de iniciativas, de coragem, de erros estratégicos e de acertos visionários que, juntos, preparam o terreno para que algo grandioso possa florescer. Tratar os marcos fundadores de forma “absoluta e positivista”, como se fossem o único ponto de partida, corre o risco de invisibilizar as histórias e negar as construções que geraram o acúmulo necessário para se chegar até ali.
A semente do nosso movimento foi plantada no terreno fértil do fim da Ditadura Militar. Com a abertura política no final dos anos 1970, a sociedade brasileira fervilhava com a reorganização de movimentos sociais que exigiam seu espaço. Foi nesse cenário que a comunidade LGBTI+ começou a articular sua voz de forma institucional.
Um marco fundamental foi a criação, em 1978, do jornal ‘Lampião da Esquina’. Nascido no Rio de Janeiro, o “Lampião” foi uma publicação pioneira que ousou tratar abertamente da homossexualidade, fazendo um contraponto corajoso à imprensa tradicional, que frequentemente resumia nossas existências às páginas policiais. Com uma tiragem que chegou a 15 mil exemplares, o jornal não apenas informava, mas também cumpria um papel político crucial: conectar leitores a grupos de ativismo e lutar para “destruir a imagem-padrão que se faz do homossexual”, mostrando que éramos seres humanos em busca de plena realização.
Inspirado por esse novo clima, também em 1978, foi fundado o Grupo Somos, em São Paulo, que lutava por uma revolução nos costumes e maior liberdade sexual. Embora majoritariamente formado por homens gays, o Somos também acolheu lésbicas e travestis, estabelecendo as bases para uma luta mais ampla e diversa.
A década de 1980 trouxe um novo e terrível desafio: a epidemia de HIV/AIDS. A associação preconceituosa da doença com a homossexualidade, apelidada pejorativamente de “peste gay”, gerou uma onda de estigma e violência que levou ao declínio de muitos grupos ativistas. No entanto, essa tragédia também se tornou um poderoso catalisador.
A luta contra a epidemia e seus estigmas não era uma pauta separada; ela se fundiu à luta por cidadania e direitos humanos. A necessidade de combater a desinformação, exigir políticas de saúde e cuidar dos nossos corpos fez com que o movimento se reorganizasse com um novo senso de urgência. A experiência da AIDS, por mais dolorosa que fosse, tornou-se um elemento articulador que impulsionou a formação de novas ONGs e fortaleceu a politização da nossa existência.
Antes da década de 90, a cidade do Rio de Janeiro já abrigava uma sequência de grupos pioneiros. Entre eles, o Grupo Atobá – Movimento de Afirmação Homossexual, fundado em 1985. O Atobá foi pioneiro no investimento em uma imagem pública positiva por meio de um trabalho estratégico com a mídia e na articulação para “fazer do tema da violência contra os homossexuais um problema de Estado”.
Essa rede de ativismo foi crucial. A decisão de trazer a conferência da ILGA para o Rio, por exemplo, foi um esforço coletivo que envolveu não apenas o Grupo Arco-Íris, mas também o Grupo Atobá, o Grupo 28 de Junho e outros coletivos que, juntos, formaram a base de apoio para a ousada “mentira” contada em 1993. A existência desses diferentes grupos, cada um com sua abordagem, criou o ecossistema necessário para que a ideia de uma marcha massiva pudesse, enfim, se tornar realidade.