Um movimento precisa de símbolos, mas em 1995, a bandeira arco-íris ainda era uma grande novidade no Brasil. O seu poder “cívico”, como o conhecemos hoje, ainda estava se constituindo. Naquele momento, a luta do movimento LGBTI+ estava visceralmente ligada à sobrevivência, marcada pela violência da epidemia do HIV/AIDS e pela violência social que ela trazia. A bandeira, portanto, refletia um movimento que ainda lutava para se manter vivo.
A decisão de transformar a bandeira arco-íris no símbolo central da Marcha de 1995 foi, em si, uma revolução política e ideológica para o movimento LGBTI+ brasileiro. Foi uma ruptura consciente com os símbolos que, até então, dominavam a luta.
Durante décadas, a resistência foi marcada pelo Triângulo Rosa (usado para identificar homens homossexuais nos campos de concentração nazistas) e pelo Triângulo Preto (usado para lésbicas, travestis e prostitutas). O movimento, num poderoso ato de ressignificação, adotou esses emblemas de perseguição como símbolos de resistência. Contudo, eles eram, por definição, “carregados de dor”.
A virada para uma simbologia afirmativa nasceu nos Estados Unidos, após a rebelião de Stonewall (1969). O artista Gilbert Baker, ao ver as faixas de pano coloridas numa passeata, concebeu a primeira bandeira arco-íris. A versão original era mais complexa, com oito cores, incluindo o rosa e o “índigo blue” (um tom de jeans). O resumo da bandeira era claro: “Unidade na Diferença”, celebrando a diversidade da comunidade e a capacidade de construir uma luta unificada.
Rapidamente, a bandeira foi simplificada para as seis cores que conhecemos hoje. A mudança foi prática: a versão de oito cores era comercialmente inviável para produção em larga escala. Para que a mensagem “rodasse o mundo” e ganhasse visibilidade, ela precisava ser fácil de reproduzir.
No Brasil, entretanto, essa transição demorou. Em meados dos anos 90, quase 25 anos após sua criação, os triângulos rosa e preto ainda eram os símbolos predominantes, muito usados em campanhas de conscientização sobre o HIV/AIDS, como a “Silêncio = Morte”.
O período de 1993 a 1995 marcou uma virada estratégica fundamental. Os ativistas do Rio entenderam que era preciso sair de uma “agenda defensiva” – cujo discurso era centrado no “Não nos matem” e na denúncia da violência – para uma “agenda afirmativa de direitos”, com a mensagem “Nós existimos e pronto, somos milhões”.
A própria fundação do “Grupo Arco-Íris” já foi parte dessa “sacada”; o nome foi pensado para ser, por si só, uma bandeira positiva.
Com a organização da Conferência da ILGA e da Marcha de 1995, os organizadores viram a oportunidade definitiva: a bandeira arco-íris ainda não era um símbolo “massificado” no Brasil. Aquele evento, com a presença de ativistas de 40 países, seria o palco para consagrar o novo símbolo. A decisão foi unânime: se era para fazer a transição, ela teria que “entrar pela porta da frente”. Não poderia ser “um negocinho humilde, simples”; teria que ser um ato de afirmação monumental, à altura da nova era política que o movimento estava inaugurando.
O estilista, pedagogo e um dos fundadores do Grupo Arco-Íris, Almir França, é a memória viva da confecção desse símbolo. Ele recorda que a primeira bandeira da marcha de 1995, ao contrário do que o imaginário popular consolidou, era pequena. “Nem de longe tinha vinte metros”, ressalta. Foi um símbolo inicial, feito pela mãe de um dos ativistas, um primeiro passo que refletia o tamanho do movimento naquele exato momento.
A bandeira não nasceu gigante. Ela cresceu com o movimento. Ano após ano, o seu tamanho tornou-se uma metáfora para a própria visibilidade política, para o crescimento e para o “quantitativo” da comunidade LGBTI+ no Brasil. A ideia de uma bandeira monumental foi um desejo que amadureceu. O número de 124 metros, que se tornaria a meta, era ele mesmo um ato político: 100 metros de orgulho + 24, ressignificando um número que sempre foi usado como “uma sombra” para o estigma.
Confeccionar esse gigante tornou-se, então, um dos maiores desafios técnicos da Parada, uma missão coordenada por Almir França. Ele explica que as primeiras bandeiras maiores rasgavam facilmente, pois eram feitas de “emendas”. Foi preciso encontrar fornecedores de tecidos apropriados, como a microfibra, e que oferecessem “metragem direta” — rolos únicos de tecido com mais de 100 metros — para evitar costuras frágeis.
O processo de confecção é uma operação de guerra. “É um desafio gigante”, descreve Almir. A bandeira exige máquinas retas industriais e “costuras rebatidas” (duplas) para garantir a durabilidade. “Você trabalha com três pessoas por máquina: uma costura e duas auxiliares para ir segurando e levando [o tecido], porque não tem braço humano que dê conta”.
Eventualmente, o ateliê fica pequeno. “Chega uma hora que essa bandeira vai pra rua”, conta Almir, “porque a gente não consegue mais acomodá-la na sala”. Ele recorda de ter que finalizar bandeiras na rua em Benfica. Para a edição dos 30 anos, uma nova bandeira de 130 metros está sendo confeccionada e será finalizada na Maré, onde a rua pode ser fechada num sábado para que o gigante seja montado.
Para Almir, coordenar esse trabalho é um privilégio. “É a bandeira cívica da minha luta, da minha história, da minha existência”, afirma. Ele confessa que a emoção de ver a bandeira ganhando a avenida é superior à de um desfile de moda aplaudido na passarela.
“Quando você vê essa bandeira ganhando a avenida… ela que diz o que acontece”, reflete Almir. “Ela é a maior comunicação que esse movimento proporciona. Quem segura essa bandeira sabe a dor do que que já teve, que tem, pra segurar aquela bandeira.”
A bandeira que nasceu pequena em 1995, e que hoje Almir sonha que “talvez precisássemos ter uma de mil metros”, é a prova física de que o movimento LGBTI+ foi, ao longo de 30 anos, descobrindo e afirmando o seu próprio tamanho.